Mostrando postagens com marcador Caná da Galileia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caná da Galileia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de julho de 2016

Vosso rosto jamais sofrerá vexame

"Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias" (Jo 2.1-12).

Quando Jesus operou o milagre da transformação de água em vinho naquele casamento em Caná da Galileia muitas lições foram ensinadas aos Seus discípulos. Como acontece com todos os milagres realizados por Jesus nos Evangelhos, este também tem um objetivo didático, pelo qual Jesus intenciona ensinar verdades espirituais aos Seus seguidores.
Um detalhe muito interessante do registro que o apóstolo João faz deste episódio é que dois dos personagens mais importantes do fato são apenas citados, aparecendo mais como coadjuvantes do que como protagonistas. De fato, Jesus é o protagonista da cena. Todavia, o cenário é uma celebração de casamento, mas os noivos não tem, sequer, os nomes mencionados. Apenas duas vezes são mencionados no relato. A primeira aparece no verso 3, sob o pronome "eles", quando Maria informa Jesus que "eles" não têm mais vinho. A segunda aparece no verso 9, quando o mestre-sala chama o "noivo" para comentar a ordem em que os vinhos foram servidos na festa.
Apesar da discrição que João garante aos noivos, eles são figuras importantes no texto. Afinal, a festa era deles! Até Jesus respeitou isso operando o milagre na presença apenas dos discípulos e dos serventes. Nem o mestre-sala presenciou o milagre (vs. 9). Creio que Jesus não desejava "roubar a cena" dos noivos, pois aquele era o dia deles. Jesus é muito carinhoso, e percebemos isso no texto. Se operasse o milagre à vista de todos, os noivos perderiam, certamente, a atenção dos convidados, e Jesus não queria que isso acontecesse. Os discípulos, todavia, receberam o ensinamento que precisavam na ocasião.
Os noivos eram os anfitriões da ocasião. Numa celebração de casamento judaica da época de Jesus as comemorações do casamento aconteciam tanto antes quanto após a celebração do casamento. A festa durava, no mínimo, um dia inteiro. Acabar a bebida no meio da festa seria uma vergonha monstruosa para a família dos noivos. Se a festa termina precocemente por falta de provisão os noivos sofreriam um vexame terrível.
A honra e o bom nome dos noivos estava em jogo quando o vinho acabou. Mas a boa notícia é que Jesus estava presente! Cumpriu-se na vida daqueles noivos o que o salmista antecipou: "Contemplai-o [o Senhor] e sereis iluminados, e o vosso rosto jamais sofrerá vexame" (Sl 34.5). O fato de Jesus estar presente impediu que o vexame maculasse aquele momento tão especial e único na vida do casal. Jesus estava pronto para prover aquilo que faltava para a honra daquela família.
Que lição preciosa temos aqui. Quando contemplamos o Senhor, isto é, quando Ele está presente, quando O convidamos, quando O seguimos, Ele nunca permitirá que soframos vexame!
E você? Já O tem em tua festa? Ele já está presente em tua vida? Já O recebeu, pela fé, no coração?

Deus abençoe.

* Essa reflexão faz parte de uma série baeada no mesmo texto bíblico. Leia as outras:

sábado, 23 de julho de 2016

As talhas vazias

"Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias" (Jo 2.1-12).

Jesus, no Seu ministério terreno, vez por outra dava instruções nada ortodoxas aos que abençoava. Numa ocasião fez lodo com a própria saliva e o pó da terra, passando-o nos olhos de um cego, mandando-o lavar em seguida (Jo 9.6-7). Mandou Pedro pescar, literalmente, o recurso para pagar os impostos devidos (Mt 17.27). Deus gosta de nos surpreender, de fazer de um jeito que jamais pensaríamos ser possível, e isso é intrigante e maravilhoso.
No texto, a instrução de Jesus para os serventes também foi inusitada. Ele pede que sejam cheias de água seis talhas de pedra. Essas talhas eram usadas para banhos cerimoniais, ou de purificação. Aqueles que chegavam deviam imergir os antebraços na água, de modo que ficassem limpos, simbolizando a purificação espiritual. A água usada para lavar os pés dos hóspedes também era retirada dessas talhas[1]. O fato dessas talhas estarem vazias possivelmente indica que os convidados do casamento já deveriam ter feito uso da água para a própria purificação, mas não temos como ter certeza disso.
De qualquer maneira, o fato de Jesus ter mandado os serventes encherem aquelas talhas de água já deve ter surpreendido muito os discípulos, pois ninguém esperava uma nova purificação, uma vez que todos já deviam ter feito isso ao chegarem. Mais intrigados ainda ficaram quando Jesus pediu que levassem ao mestre-sala para que servisse daquela 'água' aos convidados. A água usada para beber era tirada diretamente do poço e, guando guardada, não era nas talhas da purificação, mas em potes de tamanho menor. O verbo "tirar" usado por Jesus no verso 8 significa geralmente "tirar de um poço", e é usado assim no Evangelho de João. Até aquele momento ninguém havia entendido nada do que Jesus pretendia com todo aquele suspense.
Como as talhas eram usadas no ritual de purificação, cremos que Jesus as escolheu propositalmente, para representarem o sistema cerimonial judaico. As talhas vazias deveriam indicar o tradicionalismo oco vivido pelos judeus daquele tempo, onde a configuração exterior dos rituais eram preservadas, mas seu conteúdo havia sido esvaziado de sentido pela falta de fé e pelo pecado do povo. A espiritualidade judaica havia caído num automatismo religioso, numa liturgia cerimonial só de aparências. Jesus acusaria mais tarde os escribas e fariseus "sepulcros caiados", belos por fora, mas vazios de vida por dentro (Mt 23.27). As talhas que Jesus escolheu para encher transmitiram a mensagem clara de que Ele é quem recuperaria a vida da espiritualidade do povo de Deus.
O número de talhas também é significativo aqui. Eram seis talhas. Para os judeus antigos o número sete representava completude, inteireza, perfeição. Não de forma exotérica, supersticiosa, mas simbólica, por causa dos sete dias que Deus usou para completar com perfeição a criação de todas as coisas. Mas ali estavam apenas seis talhas, que sugeriam a insuficiência da Lei cerimonial. Quando Cristo ordena que sejam "cheias até em cima", pois assim as encheram os serventes, Ele ensina claramente que Ele é Quem completa a Lei, cumprindo-a "até em cima", isto é, cumprindo-a perfeitamente. Ele mesmo declararia isso adiante (Mt 5.17), e já havia declarado no Seu batismo (Mt 3.15).
O fato de Jesus ordenar, em seguida, que seja servida a "água" das talhas também aponta para uma verdade espiritual. Ensina que Jesus quer espalhar a justiça que completou em Sua vida perfeita. Seu desejo é que todos participem da Sua justiça, que todos bebam da água da vida (Jo 4.10-14; 7.37). Ele também ensinou que todo aquele que Dele bebe, pela fé, torna-se uma talha cheia de água vida, donde flui um rio de água viva para a eternidade (Jo 7.38).
Assim faz sentido todo o intrigante arranjo pelo qual Jesus resolve operar o milagre em Caná. Ele busca mostrar Sua superioridade ao antigo pacto e a perfeição e inteireza que Nele se encontram. E tudo isso está sendo oferecido pelos seus "serventes" pelo mundo afora. Todo aquele que Dele bebe fica verdadeiramente purificado, liberto da escravidão do pecado (Jo 8.36). Cristo é nossa purificação. Cristo é o fim da Lei (Rm 10.4).
Concluindo, devemos pensar em duas coisas muito importantes. 1) Será que nossa fé não tem se tornado como aquelas talhas vazias? Será que temos vivido uma religiosidade de aparências, onde a vida de Cristo não preenche mais nosso interior? 2) Temos servido a Cristo na distribuição da Sua justiça, oferecendo a todo o que tem sede a água da vida? Temos espalhado o amor de Jesus entre os que perecem na escravidão do pecado?
Essas são perguntas que não devem ser negligenciadas, jamais!

Deus abençoe!

* Essa reflexão faz parte de uma série baeada no mesmo texto bíblico. Leia as outras:
___________________
[1] Para ler mais sobre o costume da hospitalidade judaica antiga leia Quais são suas prioridades?.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Jesus e Maria: Mulher, que tenho eu contigo?

"Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias" (Jo 2.1-12).

A resposta aparentemente rude de Jesus
À primeira vista esta passagem da Escritura parece expor Jesus como alguém capaz de dar uma resposta à sua própria mãe com uma rudeza ímpar. Quando Maria O procura para informar o problema que ameaçava a celebração, o fim do vinho, a resposta que Jesus lhe dá parece destoar completamente da serenidade e doçura normalmente observadas no Cristo dos Evangelhos. Mas, afinal, o que Jesus quis dizer com aquela resposta?
A resposta de Jesus foi: "Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora". Vamos analisá-la por partes.
O termo que Jesus usou para se dirigir a Maria, "mulher" (grego "gunai"), parece indicar um tom  estranho, quase pejorativo, mas na verdade não é. Foi esta mesma palavra que Jesus usou para se dirigir a Maria da cruz ao entrega-la aos cuidados de João (Jo 19.26). Homero também utilizou a mesma palavra ao escrever sobre Odisseu dirigindo-se à Penélope, sua amada esposa. Também há registros de que Augusto usou o mesmo termo para dirigir-se à Cleópatra, célebre rainha egípcia, o que mostra que a palavra poderia ser usada com tom extremamente respeitoso. Na nossa língua portuguesa não temos um termo que traduza, com essa riqueza de intenção, o termo grego. O que se aproxima disso, respeitando a mesma cortesia, seria "senhora". Portanto, Jesus não foi desrespeitoso com a mãe, e não poderia sê-lo.
A expressão "que tenho eu contigo?" também era muito comum à época. O detalhe é que o registro gráfico do Evangelho não traz consigo o tom com que a expressão foi falada de viva voz por Jesus, e isso dificulta a interpretação. Isso porque essa expressão dependia do tom de voz usado ao proferi-la para se compreender a intenção daquele que a falava. Quando era dita com brutalidade e aspereza significava repreensão, desacordo, incompatibilidade. Mas quando falada com mansidão significa ao muito parecido com uma expressão popular que usamos no Brasil, a "deixa comigo", ou "deixa que eu resolvo", que significa "estou assumindo a responsabilidade" por algo. Essa idiossincrasia da Palestina da época de Jesus nubla um tanto a interpretação da Sua intenção ao responder à mãe. Porém, cientes das possibilidades do significado cultural da expressão, podemos fazer uma leitura mais coerente da resposta do Filho à Maria. O que Jesus quis dizer foi algo como "Senhora, pode deixar comigo que eu resolvo o problema. Não se preocupe".
A última parte da resposta de Jesus, "ainda não é chegada a minha hora", são tão importantes para a boa interpretação da cena e do significado da resposta de Jesus quanto a primeira parte. Ao que esta parte parece indicar, Maria fez a coisa certa ao procurar Jesus para resolver o problema do fim do vinho, mas tudo indica que ela não se deteve a pedir que resolvesse o problema, mas deve ter agido, naturalmente, como a mãe que ordena ao filho o que fazer em alguma situação. Porém, Maria não estava pedindo que Jesus agisse como "seu filho", mas como o Filho de Deus, para resolver o problema. Enquanto ela apelasse a Ele como seu filho humano, que dela nascera, Jesus sempre mostrou-se obediente em tudo (cf. Lc 2.51). Mas, quando Maria quis dirigir as ações de Jesus não como homem, mas como Messias, Jesus lembra-lhe com "ainda não é chegada a minha hora" que o Cristo não deve, nem pode, ser governado pelos desejos humanos, mesmo quando são fundados em necessidades verdadeiras e lícitas. Como "filho", Jesus lhe era submisso; mas como "Filho do Homem", era submisso apenas à vontade do Pai celeste (cf. Jo 5.43; 10.18; 10.25; 10.30; 15.15).
Desde modo podemos, humildemente, interpretar a resposta de Jesus parafraseando-a da seguinte forma: "Senhora, pode deixar que eu resolvo o problema, mas eu o farei conforme a vontade do meu Pai, e não a minha ou de outra pessoa, pois a minha hora é determinada por Ele, e só por Ele". Pelo menos, é como eu entendo a resposta de Jesus.

A lição que aprendemos
O que podemos aprender com essa interpretação da resposta de Jesus? No final das contas, é isso o que importa aqui. João registrou o episódio fazendo questão de incluir a resposta de Jesus, e se o fez há lições que podemos aprender.
Duas lições são aprendidas na resposta de Jesus: 1) Cristo está sempre pronto para ouvir a súplica daqueles que a Ele se achegam com fé. Ele estará sempre pronto para intervir poderosamente nos problemas humanos. 2) Jamais devemos tentar pressioná-Lo, pois Ele é Deus! Se Ele está sempre pronto para intervir nos problemas humanos, Ele o fará conforme o julgamento da Sua própria Onisciência e Sabedoria, no tempo que Ele determinar. Temos a liberdade, pela fé, de rogar-Lhe, de suplicar-Lhe algo, mas nunca de impor-Lhe qualquer coisa. Não podemos determinar-Lhe o tempo, o modo ou qualquer outro aspecto do Seu agir. Só podemos invocá-Lo, e esperar confiantes de que Ele sempre age da melhor maneira, no melhor tempo. Isso é fé!

Que Deus nos ajude absorver estas lições, e as escrever nas tábuas do coração.

Deus abençoe.

* Essa reflexão faz parte de uma série baeada no mesmo texto bíblico. Leia as outras:

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Serviço e humildade

"Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias" (Jo 2.1-12).

Ser convidado para participar da celebração de um casamento nos alegra muito. Certamente, creio, todos que nos leem agora já o foram e puderam experimentar dessa alegria. Mas, ser convidado para ajudar na organização da celebração e da festa de recepção que geralmente a segue é ainda mais especial, pois demonstra a confiança dos noivos e familiares no convidado. Maria, a mãe de Jesus, não foi convidada apenas para ser expectadora daquele casamento em Caná, mas para prestar-lhe assistência. Todo o texto indica que ela foi convidada a colaborar na organização do casamento. Vemos isso na preocupação que ela demonstra com o estoque de vinho que aproximava-se rapidamente do fim. Também, vemos que Maria estava investida de autoridade para ordenar aos serventes que fizessem tudo o que Jesus dissesse. Alguns manuscritos posteriores ao Evangelho de João, que não eram inspirados por Deus e, portanto, não fazem parte do cânon bíblico, agregam alguns detalhes ao relato que temos no Evangelho de João. Num deles Maria é descrita como irmã da mãe do noivo, o que não temos nenhum motivo para duvidar dessa informação, pois é perfeitamente aceitável que tivesse parentes morando próximo à Nazaré. Alguns outros ainda dizem que o noivo seria o próprio João, autor deste Evangelho, e a irmã de Maria seria sua mãe, Salomé. Disso não temos como saber a veracidade, mas o relato que João faz da cena parece indicar a perspectiva de alguém que testemunhou pessoalmente a cena.

Vivendo para servir
Bom, especulações à parte, o que nos importa aqui é que Maria estava, de fato, servindo à família dos noivos colaborando na organização da celebração. A singularidade de Maria não poderá ser questionada por qualquer que leia, com um mínimo aceitável de atenção e zelo, as páginas do Novo Testamento. Desde sua eleição como genitora do Filho de Deus; sua piedade e caráter diante do noivo prometido, José; seu comprometimento na função de mãe de um menino especial, de temos a notícia que foi muito bem sucedida; seu compromisso inabalável de estar atenta aos ensinos de seu filho, agora publicamente reconhecido como "o Filho"; e sua relação com os discípulos do Mestre, do início ao fim de sua história, podemos ver o coração piedoso e dedicado de Maria. Ninguém poderá argumentar com aquele que cita Maria como um dos maiores, senão o maior, exemplo de fé cristã de todos os tempos.
Servir, eis a questão! Quantas oportunidades de servir se nos são dadas todos os dias. Quantas vezes Deus preparou situações e condições para que servíssemos ao próximo, mas nosso egoísmo nos impediu de aceitarmos, ou mesmo, de reconhecê-las. Já viu o trabalho que dá organizar um casamento? Não era diferente na época de Jesus. Dá muito, mas muito, trabalho. Maria deve ter ido bem mais cedo, senão dias antes dos demais convidados, para que quando estes chegassem, encontrassem tudo pronto.
A disposição de Maria deve nos estimular a servir também. Sempre ouvi de meu pai que "quem não vive para servir não serve para viver". Ele tem razão, pois a Bíblia ensina a mesma verdade. Somos chamados por Deus para servir, não para sermos servidos (cf. Mt 20.28).

A humildade da fé
Como comumente acontece, parece que a previsão que os organizadores fizeram da quantidade de convidados, ou do consumo que fariam do vinho, foi um tanto tímida, pois o vinho deu de acabar com a festança ainda em curso. Quando isso acontece, quem é que corre pra lá e pra cá, executando algum plano emergencial que solucione o problema? Os organizadores! Este é o papel que Maria desempenha no texto. E o fez majestosamente bem. Quando nosso serviço cristão, ou mesmo secular, carece de medidas que nossos braços não alcançam resolver, a quem devemos clamar por socorro? Maria procurou o Filho! Não o "filho", mas o "Filho". Ela não foi a Jesus como seu filhinho querido, o que não deixara de ser, obviamente, mas ela foi a Ele com a expectativa da fé, sabendo que Ele era Quem poderia resolver o problema! Isso é fé! Isso é confiança! Isso é esperança! Mesmo quando ouviu a resposta de Jesus, nada convencional, diante da informação de que o vinha acabara, Maria persistiu na esperança de que Ele resolveria o problema, se dirigindo aos serventes e "passando a bola" para Jesus; ela disse aos serventes: "Fazei tudo o que ele vos disser". Maria não tinha condições de resolver o problema da falta de vinho, de outra forma ela mesma resolveria o problema sem incomodar Jesus e seus discípulos. Maria, ao procurar Jesus e direcionar a atenção dos serventes para o Filho, reconhece seu limite. Que lição preciosa! Quantas vezes tentamos resolver nós mesmos problemas que já nos fugiram há muito tempo do controle! Quantas vezes nosso orgulho nos cegou e presunçosamente tentamos, em vão, encontrar uma saída das situações mais escabrosas! Todavia, sempre que reconhecemos nossos limites e "passamos a bola" para Jesus veremos a solução. Não quero dizer que Ele não espera de nós o esforço e a perseverança, mas que há uma linha tênue que separa a perseverança corajosa do orgulho presunçoso. Reconhecer nossos limites e aprender a descansar em Deus, isto sim, é sinal de maturidade da fé.

Que Deus nos ajude a perceber as oportunidades de servir, e a aceitá-las. Que Ele nos revigore as forças e nos eleve o ânimo para estarmos sempre dispostos a servir ao próximo. Que Ele também nos ajude no amadurecimento da fé, para que a humildade preencha nosso coração e passemos a reconhecer nossa limitação, olhando sempre para o Autor e Consumador da nossa fé, Jesus Cristo (cf. Hb 12.2).

Deus abençoe.

* Essa reflexão faz parte de uma série baeada no mesmo texto bíblico. Leia as outras:

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Fé sempre firme!

"Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias" (Jo 2.1-12).

Este episódio da vida de Jesus, participando de uma festa de casamento, contém um dos fatos mais conhecidos sobre o Senhor: ele transformou água em vinho. Este primeiro milagre de Jesus serviu até para a cunhagem do dito popular "foi da água para o vinho", que se diz querendo significar que algo mudou radicalmente para melhor. É também muito lembrado quando o superestimado e polemizado assunto do "vinho" e do "pode ou não pode" um cristão beber bebida alcoólica é trazido à baila. Mas é um reducionismo grosseiro e, perdoem-me, até malicioso, olhar para este texto e crer que o vinho é personagem protagonista, fazendo do Mestre coadjuvante. O vinho é um mero detalhe no texto, como percebe qualquer que correr os olhos com mais cautela e honestidade sobre estas letras.
Aqui, quero me ater a dois versos que me chamaram muito a atenção. A partir deles, compartilhar algo que me saltou aos olhos e que, creio, mostrar-se-á de grande valia para os leitores.
A pequena vila de Caná era vizinha da cidade de Nazaré, onde residia Jesus, sua mãe Maria e seus irmãos, que foram convidados a participarem de um casório ocorrido ali. No verso 2 lemos que Jesus foi convidado e, junto com Ele, Seus discípulos. Interessa-nos, aqui, lembrar que Jesus estava iniciando Seu ministério público, e o grupo de discípulos resumia-se aos irmãos André e Simão Pedro, somados a Filipe e Natanael. Ao que nos parece, nem o grupo apostólico estava completo como o conhecemos, composto dos 12. De qualquer maneira, é claro que Jesus já contava com alguns discípulos na data daquela celebração. Também vale lembrar que Jesus ainda não havia operado nenhum milagre, no sentido de sinais, sendo a transformação da água em vinho o primeiro deles.
Contudo, o verso 11 registra as seguintes palavras: "Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele" (grifo meu). Veja que coisa interessante! Jesus tinha um grupo de seguidores que João, autor deste Evangelho, chamou de "discípulos", palavra usada nos Evangelhos sempre para referir-se aos que decidiram seguir Jesus. Porém, após o milagre operado, João diz que os discípulos creram nele. Como assim? Já não criam Nele? Já não eram discípulos antes do milagre?
João não pretende afirmar que aqueles homens não criam que Jesus era o Messias prometido até aquele momento. Ele os reconhece como discípulos de Jesus mesmo antes de irem a Caná para o casamento. Compreenderemos melhor o que João intenciona ao afirmar que aqueles discípulos creram Nele se observarmos a sentença anterior, em que se lê: "manifestou a sua glória". O próprio João já havia dito no prólogo do seu Evangelho: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (Jo 1.14). Para João parece haver algo que relacione a glória de Cristo com a fé dos discípulos. Parece-nos que aquele grupo inicial de discípulos de Jesus criam Nele o suficiente para segui-Lo, baseados nos testemunhos de João Batista e nos encontros anteriores que tiveram com o Senhor. Todavia, o texto que estudamos aqui parece indicar que uma experiência pessoal com a glória de Jesus robustece, aprofunda e amadurece a fé. O apóstolo Paulo escreveria, mais tarde, que "a fé vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Cristo" (Rm 10.17). Essa fé já se encontrava no coração daqueles discípulos pioneiros do cristianismo, pois creram na pregação, tanto de João, o Batista, quanto do próprio Jesus. Mas, ainda assim, já crentes e seguidores de Jesus, a experiência com a manifestação da glória de Cristo reafirmou e cimentou aquela fé.
Ao que aprendemos do contexto geral do Novo Testamento a fé na pregação é totalmente suficiente para a salvação, desde que se entenda "fé" aqui nos termos do próprio Novo Testamento, envolvendo rendição cognitiva, volitiva e espiritual ao Senhorio de Cristo mediante arrependimento dos pecados. Contudo, parece-nos razoável afirmar, baseados na relação que João nos apresenta nesta passagem entre a manifestação da glória de Cristo e a firmeza da fé, que é possível que cristãos verdadeiros, discípulos do Mestre, que experimentam e presenciam a glória de Cristo fortaleçam mais ainda sua fé. Como se experimenta, então, a glória de Cristo? Primeiramente com a consciência do tamanho do amor e do poder Dele em nos ter aceitado como discípulos e nos salvar. Unido a isso deve haver uma vida de oração e meditação bíblica sincera e perseverante, de modo que estejamos sempre prontos para a manifestação da glória Dele em nossas vidas. Devemos nos lembrar que aqueles discípulos só puderam presenciar a manifestação da glória de Jesus porque estavam junto Dele, atentos ao Seu agir. Discípulos desatentos e indiferentes não verão a manifestação da glória do Senhor, e mesmo se a verem, podem não conseguir se apropriar da bênção que ela traz.
Daí tiramos nossa reflexão pessoal: como anda nossa vida devocional? E você? Tem se mantido atento ao agir do Senhor? Tem feito questão de estar sempre na Sua presença?
Encerro citando Agostinho, que "matou a charada" com o axioma abaixo:
"Se você é um fracasso em sua vida de devoção, é um impostor em todas as outras coisas"

Deus abençoe.

* Essa reflexão faz parte de uma série baeada no mesmo texto bíblico. Leia as outras: