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terça-feira, 26 de julho de 2016

Vosso rosto jamais sofrerá vexame

"Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galileia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei de água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias" (Jo 2.1-12).

Quando Jesus operou o milagre da transformação de água em vinho naquele casamento em Caná da Galileia muitas lições foram ensinadas aos Seus discípulos. Como acontece com todos os milagres realizados por Jesus nos Evangelhos, este também tem um objetivo didático, pelo qual Jesus intenciona ensinar verdades espirituais aos Seus seguidores.
Um detalhe muito interessante do registro que o apóstolo João faz deste episódio é que dois dos personagens mais importantes do fato são apenas citados, aparecendo mais como coadjuvantes do que como protagonistas. De fato, Jesus é o protagonista da cena. Todavia, o cenário é uma celebração de casamento, mas os noivos não tem, sequer, os nomes mencionados. Apenas duas vezes são mencionados no relato. A primeira aparece no verso 3, sob o pronome "eles", quando Maria informa Jesus que "eles" não têm mais vinho. A segunda aparece no verso 9, quando o mestre-sala chama o "noivo" para comentar a ordem em que os vinhos foram servidos na festa.
Apesar da discrição que João garante aos noivos, eles são figuras importantes no texto. Afinal, a festa era deles! Até Jesus respeitou isso operando o milagre na presença apenas dos discípulos e dos serventes. Nem o mestre-sala presenciou o milagre (vs. 9). Creio que Jesus não desejava "roubar a cena" dos noivos, pois aquele era o dia deles. Jesus é muito carinhoso, e percebemos isso no texto. Se operasse o milagre à vista de todos, os noivos perderiam, certamente, a atenção dos convidados, e Jesus não queria que isso acontecesse. Os discípulos, todavia, receberam o ensinamento que precisavam na ocasião.
Os noivos eram os anfitriões da ocasião. Numa celebração de casamento judaica da época de Jesus as comemorações do casamento aconteciam tanto antes quanto após a celebração do casamento. A festa durava, no mínimo, um dia inteiro. Acabar a bebida no meio da festa seria uma vergonha monstruosa para a família dos noivos. Se a festa termina precocemente por falta de provisão os noivos sofreriam um vexame terrível.
A honra e o bom nome dos noivos estava em jogo quando o vinho acabou. Mas a boa notícia é que Jesus estava presente! Cumpriu-se na vida daqueles noivos o que o salmista antecipou: "Contemplai-o [o Senhor] e sereis iluminados, e o vosso rosto jamais sofrerá vexame" (Sl 34.5). O fato de Jesus estar presente impediu que o vexame maculasse aquele momento tão especial e único na vida do casal. Jesus estava pronto para prover aquilo que faltava para a honra daquela família.
Que lição preciosa temos aqui. Quando contemplamos o Senhor, isto é, quando Ele está presente, quando O convidamos, quando O seguimos, Ele nunca permitirá que soframos vexame!
E você? Já O tem em tua festa? Ele já está presente em tua vida? Já O recebeu, pela fé, no coração?

Deus abençoe.

* Essa reflexão faz parte de uma série baeada no mesmo texto bíblico. Leia as outras:

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Honestidade

"pois o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens" IICo 8.21

Honestidade: "1. qualidade ou caráter de honesto, atributo do que apresenta probidade, honradez, segundo certos preceitos morais socialmente válidos. 2. característica do que é decente, do que tem pureza e é moralmente irrepreensível; castidade". Assim define honestidade o dicionário[1]. Mas o que a Bíblia chama de honestidade?
A honestidade tem a ver com honra, com caráter, com dignidade, com ética, com consciência, seriedade e dignidade. Honestidade é a qualidade das pessoas de caráter reto, preocupadas em preservar a própria consciência livre de acusações, sejam externas ou internas, dos outros ou de si mesmos.
Na Bíblia a honestidade é filha da verdade, pois carrega o mesma DNA; são da mesma natureza, da mesma substância. A honestidade é um desdobramento prático da verdade; só é honesto quem tem gosto pela verdade. No Brasil, país assolado pela corrupção desde os primórdios como Nação Estado, a desonestidade, oposto da honestidade, é muito conhecida e qualquer adolescente conseguiria exemplifica-la citando um escândalo envolvendo políticos e um caso envolvendo colegas de escola. Isto porque a desonestidade está presente desde o colar na prova da escola até os bilhões desviados dos cofres públicos, e os desonestos já não se esforçam tanto para camuflar seu comportamento como antes; parece-me que simplesmente não se importam se a desonestidade é conhecida ou não.
Quem não conhece alguém que colou em uma prova? Pensou na escola, no primário? Não, meu amigo. Sabe onde a cola é mais presente? Nos cursos universitários! Quer saber qual minha fonte de informação para afirmar isto? Os próprios universitários! Converse com um deles, pergunte-o, e ele te dirá se estou mentindo. Eu, hoje pastor, tive colegas no seminário que colavam nas provas (minha cara está vermelha de vergonha agora, saiba disso). Que tipo de profissional será aquele que trapaceou durante boa parte do curso? Quem não conhece alguém que burlava alguma regra das brincadeiras quando criança para obter vantagem? Eu me lembro até de pais incentivando a desonestidade dos filhos nos jogos infantis, e que depois se gabavam de ter filhos "espertos". Quem não conhece algum amigo que, enquanto jovem, "ficava" com várias moças ao mesmo tempo, traindo as namoradas? E isso vale para as amigas também, pois desonestidade não tem nada a ver com gênero. Bom, espero ter aguçado tua memória e, triste e notalgicamente, lembrado-lhe de que a desonestidade sempre esteve do teu lado, senão dentro de ti.
No entanto, o que o apóstolo está afirmando é que, para o cristão, "o que nos preocupa é procedermos honestamente, não só perante o Senhor, como também diante dos homens". Cristão são preocupados com a questão da honestidade. Preocupação, aqui, é o cuidado permanente e atencioso de julgar o próprio comportamento para mantê-lo sempre honesto, tanto sob o crivo homens como o de Deus.
Tenho aprendido nestes 16 anos de caminhada cristã, e 5 de ministério pastoral, que existem muitos crentes com uma dificuldade enorme de lidar com o vício da desonestidade. Para alguns ser honesto é um desafio gigantesco, mesmo afirmando terem experimentado uma conversão ao Evangelho. Por que isso? A resposta completa para essa questão é mais complexa do que o espaço aqui me permite usar, mas percebo, no final, que vivemos numa sociedade viciada em faltar com a verdade, viciada em mentir e trapacear para resolver seus problemas e para obter vantagem. Demos até um apelidinho "carinhoso" para esse jeito de ser. Nós o chamamos de "jeitinho brasileiro". Não é lindo? Brasileiros não se apertam em situação nenhuma, nós sempre damos um "jeitinho". Sempre encontramos uma saída, como dizia o articulado personagem de Hanna-Barbera, o Leão da montanha, "Saída, pela esquerda", sempre que se via constrangido em alguma situação[2]. Somos uma sociedade viciada no "jeito mais fácil", entorpecida pela desonestidade. Somos uma sociedade onde a verdade é um item opcional, um acessório que nem tem tanto valor assim. Somos uma sociedade que ridiculariza a honestidade, só porque ela nos lembra da falta dela em nós mesmos. Somos uma sociedade que (des)aprendeu a determinar o que é honesto pelo "todo mundo faz", e não pelos valores éticos, morais e bíblicos (cf. Ex 23.2). Ruy Barbosa disse certa vez: "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto". Teria sido Barbosa um profeta? Pergunto-me!
Mas tudo isso não muda o apelo do apóstolo: devemos ser honestos em assuntos espirituais e seculares, tanto diante de Deus quanto dos homens. A verdade é a aspiração do crente, sua motivação e seu fundamento. Fora da verdade não pode haver relação com Deus, pois Deus é a verdade (Jo 14.6). É a verdade que liberta (Jo 8.32), e não o jeitinho brasileiro. É a verdade que santifica (Jo 17.17), e não a opinião pública.
Desafio você, como o faço a mim mesmo, a sermos honestos. Nos desafio a permitir que a verdade seja nosso farol, nosso guia, pelo Espírito de Deus (Rm 8.14). Desafio a todo cristão que se despoje da desonestidade e do jeitinho brasileiro, para adotar em seu lugar o jeito de Deus. Desafio os pais cristãos a não educarem seus filhos para serem "espertos", mas para serem honestos, desde as brincadeiras e jogos, até às provas universitárias, para se tornarem adultos que dignifiquem o Evangelho de Cristo. Desafio os pais cristãos a disciplinarem os filhos por faltar com a verdade. Mas, para isso, os pais deverão dar o exemplo. Todos nós, cristãos, estamos submetidos a esses desafios desde que assumiram a Palavra de Deus como verdade e creram em Cristo como seu Senhor. Eu só os relembro, aqui, da responsabilidade que temos.
Que Deus nos ajude no meio dessa geração corrupta e perversa, amante dos prazeres e da desonestidade.

"Não há ninguém mais fácil de enganar do que um homem honesto; muito crê quem nunca mente, e confia muito quem nunca engana" Baltazar Gracián y Morales.
"Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade" Sócrates.
"Nenhuma herança é tão rica quanto a honestidade" Shakespeare.

Deus abençoe.
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[1] Dicionário eletrônico Houaiss, versão 3.0 de junho/2009.
[2] Se quiser saber mais sobre o personagem animado O Leão da montanha, de Hanna-Barbera, basta clicar aqui.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Que Ele cresça, e eu diminua!

"Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3.28-30).

As palavras transcritas acima foram ditas por João, o Batista, quando questionado sobre Jesus, "aquele de quem dava testemunho". Os discípulos de Jesus começaram a batizar pessoas sob Sua orientação e as pessoas iam ao Seu encontro. Preocupado com "a concorrência", um dos discípulos de João Batista, que batizava no rio Jordão, comunica-lhe o fato, talvez na expectativa de que seu mestre adotasse alguma medida estratégica para conter a "migração" de seus fiéis para o novo ministério de Jesus, o nazareno. Mas, ao contrário, a resposta de João diverge das expectativas humanas sobre a situação.
A primeira coisa que João manifesta ao receber a notícia de que o ministério de Jesus está crescendo é alegria. Ele diz, "pois esta alegria já se cumpriu em mim", referindo-se à alegria de saber que o noivo está presente, e tem recebido a Sua noiva, a Igreja. Daí, a declaração final de João, sintetizando toda a sua alegria, esperança e fé, de que "convém que ele cresça e que eu diminua". Ah, que conclusão essa a que João chegou!
João trabalhou muito para projetar seu ministério de batizador no rio Jordão. Para começar, seu nascimento foi um milagre extraordinário, pois sua mãe, Isabel, era estéril, e ainda por cima ambos os pais eram já de avançada idade quando foi concebido após revelação de Deus sobre seu nascimento e ministério (Lc 1.5-23). João também não teve uma preparação fácil para o ministério, pois viveu um tempo no deserto, alimentando-se de mel silvestre e gafanhotos, e vestindo roupas de pêlos de camelo (Mt 3.1-5). Mas, depois de uma vida inteira de trabalho, vê agora as pessoas, pouco a pouco, deixando seu trabalho para seguir o novato mestre, recém batizado por ele, que deu início ao próprio ministério. Normalmente, de uma perspectiva totalmente humana e honesta, João deveria estar enciumado; no mínimo, chateado; mas, não é o que vemos. Vemos, entretanto, João reconhecendo que Aquele que aparenta ser uma concorrência, na verdade, é a razão de todo o trabalho que desempenhou até agora. João reconhece que Jesus é o Cristo, e que toda a sua própria vida e esforço e abnegação eram próprios de um "precursor" desse Cristo. Não há um pingo sequer de inveja, de cobiça, de despeito em João com relação a Jesus; pelo contrário, João se alegra com o crescimento do nome de Jesus. Não só se alegra, mas reconhece que convém que Jesus absorva totalmente seu trabalho e cresça, até que ele próprio, João, "saia de cena".
E nós? Quando aparentemente somos diminuídos pela glória e honra que, ao invés de vir até nós para coroar todo nosso esforço e dedicação, segue direto até Jesus, sem sequer fazer com que nosso nome apareça nos créditos do final do filme? E quando Jesus reclama para Si, por direito, a honra e glória que todo nosso trabalho produziu? Ficamos tristes? Ficamos desanimados? Ou ficamos alegres como João, por lembrar que convém que Ele cresça? Ah, entendi! O problema não é "que Ele cresça". O problema está no "que eu diminua". Jesus crescer não é problema, a dificuldade está na diminuição que pode sofrer nossa própria glória e honra, a diminuição do reconhecimento de todo "o excelente trabalho das nossas mãos"... Quanta gente chateado, emburrado, ferido dentro das Igrejas por que "o pastor não citou meu nome", "ciclano não falou de mim nos agradecimentos", etc... Sejamos sinceros: nosso ego muitas vezes não quer diminuir! Ele tem uma dificuldade tremenda de ver-se diminuído...
Eu acredito, piamente, que essa qualidade do caráter de João Batista foi que levou Jesus, depois de um tempo, a declarar sobre ele: "E eu vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que João; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele" (Lc 7.28). João não escreveu nenhum livro, João não fez nenhum milagre que saibamos, João não foi carismático e eloquente, mas João sabia diminuir-se para que Cristo cresça!
Seu nome foi lembrado? Seu nome foi citado nos agradecimentos? Honra foi-lhe dada por algum trabalho no Reino de Deus? Que bom, mas tome cuidado para não esquecer que é Ele Quem deve crescer! Cuidado para que não "desaprenda" a diminuir-se! Cuidado com o orgulho e a vaidade, pois estes venenos têm corrido pelas veias de muitos que amaram mais a glória dos homens do que a de Deus (Jo 12.43; ITs 2.6). Há muitos que, quando deveriam aprender a diminuir, buscam ter a primazia (IIIJo 9).
Dá gosto estar com gente que sabe diminuir-se. Não diminuir-se em comiseração e autopiedade. Não o falso diminuir-se, que falseia uma "humildade" fajuta na frente dos outros, mas lá dentro do coração ama de paixão a glória, quanto mais pomposa melhor, que ama os aplausos e os holofotes. Não a demagogia dos que esperam que outros reconheçam e fiquem condoídos da sua "tão grande humildade". Não, mas diminuir-se para que Cristo cresça! Dá gosto testemunhar a alegria no olhar, no sorriso, no semblante daqueles que gastam e se deixam gastar para que o Nome bendito de Jesus e Sua glória cresçam!

Glórias sejam dadas a Deus, pela vida dos que sabem diminuir-se! Quero aprender a ser um destes!
A Deus, Senhor de tudo e de todos, o Qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos (Ef 4.6), seja a glória, o domínio, a majestade, o poder, a honra, para todo o sempre!!!

Deus abençoe.
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* A fotografia que ilustra esta postagem é do ator Michael York, que atuou como João Batista no clássico Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli, de 1977.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Honestidade deve bastar!

"Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno" (Mt 5.33-37).

Jesus, no capítulo cinco do Evangelho segundo Mateus, faz várias contraposições ao modo como os judeus (principalmente os mestres, como fariseus e escribas) tinham se distanciado do significado real de alguns assuntos da Lei, como homicídio, adultério, vingança, amor ao próximo e, no texto supra-citado, dos juramentos. Jesus está, de modo muito educado e didático, mostrando que os judeus não haviam entendido a profundidade da Lei e dos mandamentos do Senhor, e isso fica evidente quando Ele usa as expressões "ouvistes que foi dito aos antigos" e "eu, porém, vos digo". Ele não está contrariando o ensino do Antigo Testamento, pois Ele não diz "ouviste o que diz a Lei" ou "ouviste o mandamento tal", Ele diz que está corrigindo a visão que os antigos tiveram a respeito da Lei, e não da Lei em si.
Nos dias de Jesus, os judeus haviam criado centenas de mandamentos e decretos por conta própria, que não constavam na Lei. Não só isso, mas ao mesmo tempo em que aumentaram o número de mandamentos, colocando uma carga impossível de carregar sobre os lombos das pessoas, banalizaram a intensidade e profundidade de vários dos ensinos da mesma Lei. E é este ajuste que Jesus busca fazer, quebrando paradigmas estabelecidos pela negligência e descuido na interpretação e ensino da Lei.
Ao tratar da questão dos juramentos, Jesus está contrariando a crendice da época de que a palavra de alguém só poderia ser cobrada se o nome de Deus fosse colocado no juramento. Quando não se usava o nome de Deus, a responsabilidade de arcar com a palavra dada simplesmente não existia, ou quando o nome de Deus era evitado, num simulacro tosco de zelo e santidade, penhorava-se nas juras coisas como o céu, a terra, Jerusalém, e até a própria cabeça. Mas Jesus está colocando as coisas nos eixos, mostrando que nem a própria cabeça pode ser penhorada como garantia da palavra, pois não temos controle nem sobre a cor dos fios de cabelo que nela se penduram; quanto mais a presunção de penhorar a cidade do Grande Rei (que é o próprio Jesus), Jerusalém, e chegando até a penhorar a terra e, pasmem, o céu! Todas as coisas que se usavam como penhora nas juras estavam, de fato, ligadas a Deus, e é isso que Jesus usa como base do Seu argumento, pois Deus é o proprietário por direito dos céus e da terra, e de tudo o que neles há (cf. Sl 24.1).
Portanto, o ensino de Jesus que busca endireitar a ótica sobre os juramentos é que o cristão deve ser gente de palavra, pessoa cujo sim significa sim, e não significa não, sem necessidade de penhorar algo que não possui ou escorar-se na autoridade de outrem para fazer valer sua palavra. Deve haver, no caráter cristão, honra e brio suficiente para garantir a palavra dada e o compromisso assumido. O bom nome do cristão deve bastar para que sua palavra seja aceita como penhor do compromisso (cf. Pv 22.1; Ec 7.1). A honestidade vivida é toda penhora da qual deveríamos precisar. Quando um cristão empenha sua palavra deve esforçar-se ao máximo para cumpri-la à risca, pois isso é digno de honra e glorifica a Deus, mesmo naquilo que pareça "coisa pouca" para muitos. Disse que irá, vá. Disse que devolverá, devolva. Disse que fará de tal forma, dessa forma faça, etc.
Que Deus seja glorificado num povo santo, cuja palavra é digna de aceitação, mesmo no meio de uma geração perversa e corrupta.

Deus abençoe.

sábado, 21 de maio de 2016

Profeta sem honra

"Tendo Jesus proferido estas parábolas, retirou-se dali. E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de tal sorte que se maravilhavam e diziam: Donde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles" (Mt 13.53-58).
Jesus nasceu na pequenina Belém de Judá, mas passou sua infância, adolescência e boa parte da juventude na cidade de Nazaré, onde os fatos do texto acima se passaram. José, padrasto de Jesus e marido de Maria, sua mãe, possuiu ali sua oficina de carpintaria de onde retirou o sustento para si e sua família durante bons anos. O texto parece indicar que José foi o único carpinteiro da cidade por um longo período, pois os homens questionam: "não é este o filho do carpinteiro?", como se o ofício pudesse substituir o nome próprio de José para identificá-lo ou diferencia-lo de algum outro carpinteiro. Naquela cidadezinha da região da Galileia, norte de Israel, não muito distante do mar da Galileia, Jesus aprendeu a andar, a falar, a ler, brincou com amiguinhos, aprendeu o ofício de carpinteiro. Foi amigo, vizinho, colega de turma, membro da sinagoga local. Agora, algum tempo depois, Ele está ensinando a Palavra de Deus com uma autoridade e destreza sem igual, fazendo milagres extraordinários, tendo após Si seus próprios discípulos e é chamado de Mestre e de Profeta.
Quase todos naquela cidade não conseguiram reconhecê-Lo como um Mestre, apesar das evidências que lhes estavam diante dos olhos. Muitos, talvez sentados em cadeiras ou debruçados em mesas cuja madeira fora trabalhada pelas mãos do próprio Jesus, questionavam a origem de Sua sabedoria e custavam crer que fosse, de fato, um Profeta de Deus. Afinal de contas, Ele era apenas aquele menininho da carpintaria, sem muita distinção das outras crianças, que cresceu e agora dispõe de alguma fama.
A incredulidade dos nazarenos foi plantada pelo preconceito que fincou os pés no coração e mente daquele povo. A origem humilde e a juventude sem destaques não poderiam tê-Lo tornado o Mestre  Profeta do calibre que agora testemunham com seus ouvidos e seus olhos, pensavam. É bastante provável que alguns dos irmãos de Jesus ainda morassem na cidade, e suas irmãs moravam, pois é isso que eles dizem: "não vivem entre nós todas as suas irmãs?". E o texto parece indicar que nem mesmo estes irmãos e irmãs de Jesus conseguiram ver além da muralha do preconceito, mesmo tendo vivido por um tempo na mesma casa que o Criador de todas as coisas!!!
Geralmente as pessoas dão pouco valor ao que se tornou "comum". Ver Jesus fazer coisas simples, cotidianas, corriqueiras, fê-los duvidarem e cegou-os para o fato de que Jesus era especial. Jesus não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade deles, do seu preconceito.
E nós? Temos valorizado as pessoas especiais que convivem conosco? Conseguimos enxergar além da visão simplória dos hábitos corriqueiros e perceber o potencial extraordinário daqueles que nos rodeiam? Temos valorizado mais "os de fora" do que aqueles que vivem conosco? Temos vivido como se "a grama do vizinho fosse sempre mais verde"? Fica a reflexão para cada um de nós fazer uma autoanálise...
No final, uma coisa é certa: "Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa".

Deus abençoe.